João Martins
Havia sido no ano de 1991 que o Senado dos EUA aprovara, após longa série de discussões, o texto conhecido como “High performance computing and communication act”. A decisão seria aclamada de várias formas. Segundo o então presidente republicano George Bush, tais investimentos eram a chave para se “revelar os segredos do DNA, prever graves eventos climáticos [ou] descobrir novos materiais supercondutores” [1]. Para o senador democrata Al Gore, autor do projeto, os benefícios diretos estariam na interconexão das escolas de ensino médio e fundamental, na ampliação de programas educacionais e na expansão da estrutura para pesquisa.
Aclamar a importância da ciência ou a relevância da educação não era o único consenso nas declarações de ocasião. Era marcante, na apresentação do texto, o interesse na transferência de capacidades técnicas da academia para a indústria. Propunha-se que estava a ser criado algo relevante para o desenvolvimento econômico, mas não apenas isso. Indicava-se que o longo trajeto percorrido pelos EUA no investimento em computadores expandia seu percurso, como uma história que naturalmente se desenrola. Pela última vez uma afirmação de tal tipo seria realizada. A partir daí, as redes de computação se transformariam em um acontecimento particular, desgarrado desta extensa experiência pregressa.
Tal postura parece contraditória, quando se retoma debates dos anos anteriores. A discussão sobre a importância de se orientar o setor de computação na busca de alternativas à competição crescente do Japão e de países da Europa marcara a década de 80. Redes de comunicação, naquele contexto, eram entendidas como o instrumento capaz de expandir o acesso a tais recursos, numa opção vista como a melhor escolha para se ampliar seu aproveitamento. O que se iniciou com a Arpanet e se expandira pela participação da National Science Foundation, apenas consolidava-se pelo “Computing act”. Tais atos representavam respostas indicadas desde 1982, e que prosseguiam, em séries de audiências e encontros, se materializando em diversos relatórios por aqueles anos afora.
Em 1991, se estava concluindo algo que descendia do primeiro relatório a instituir as bases de ação para as redes a partir da década de 80 [2]. Seu conteúdo era suficientemente claro: o investimento em computação, orientado para a interconexão de recursos que permitam a pesquisa estratégica em defesa, energia e para usos aeroespaciais, deveria ser contínuo, garantindo seu aproveitamento pela comunidade acadêmica. Tais prerrogativas, centrais em pesquisa atmosférica, astrofísica, biologia molecular, desenho de circuito integrado e pesquisa de fusão, seriam reforçadas em documentos do mesmo tipo, em 1983 e 1987 [3], e em proposições legais do Senado estadunidense, de 1986, 1988 e 1989 [4].
A inovação do texto de 1991 era o argumento de que a rede deveria prestar-se não apenas para fins técnicos. Sua aplicação iria gerar benefícios coletivos, extensíveis à sociedade de modo integral, e não apenas a um grupo de cientistas. Aqueles objetivos já conhecidos, dizia-se, dariam melhor resultado quando diretamente conectados com o uso por um público mais amplo, localizado em escolas e universidades. Tais gastos seriam mais bem empregados se direcionados também para a informatização de bibliotecas, destino muito menos sofisticado, quando se compara a lista de finalidades exposta acima.
Faz pouco sentido uma preocupação deste tipo, ainda mais quando se pensa no quilate dos usos que serão dados a esta estrutura. O que está em jogo é certamente mais do que a catalogação de acervos universitários. Estas são iniciativas que permitem nada menos que o funcionamento integrado de recursos de computação e de telecomunicações, setores fundamentais para o capitalismo contemporâneo. É nas iniciativas deste momento que se consegue, pela primeira vez, a oportunidade de que áreas urbanas, distantes do ambiente de laboratório, experimentem a conexão em alta velocidade. E é também a partir daí que a experiência de administração de tráfego em larga escala se torna viável.
As declarações sobre “economia digital”, daí em diante produzidas, são de natureza distinta. Bebem na idéia de que uma renovação econômica, em grande parte produzida exclusivamente pela Internet, é a força motriz por trás de boa parte da recuperação econômica dos EUA, sem citar a relação que tal rede possui com todo o sistema de aperfeiçoamento técnico em questão. Sobra apenas a certeza de que se deve aproveitá-la como oportunidade. Não se sabe bem qual sua procedência: as referências são sempre a Arpanet, investimento de duas ou três décadas atrás, como o começo e o fim de todo o histórico que conduz até as redes comerciais.
O determinismo tecnológico está exatamente aí. Sua principal habilidade foi fazer crer que a criação de certas tecnologias dá início a um movimento que não pode mais ser interrompido. Por apagar as raízes de todo este projeto, a postura pública em relação à “revolução digital” tornava possíveis afirmações completamente fora de lugar. Dois movimentos se misturam. Em um, tais redes ganham vida própria e passam a ser compreendidas como parte de algo completamente novo: a reestruturação de todas as atividades econômicas pré-existentes se transforma numa “nova economia”. Em outro, da suposição de que se trata de alguma ação descolada de interesses diretamente capitalistas se conclui que se deveria, logicamente, tratar sobre atividades com finalidade humanística ou democrática. Um estranho par que, agora, pode caminhar em harmonia.
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[1] “Remarks on Signing the High-Performance Computing Act of 1991”, 09/12/1991, em 04, jul. 2008.
[2] "Report of the panel on large scale computing in science and engineering/Lax Panel", NSF & DoD, 1982.
[3] FCCSET, 1983. "Panel on Supercomputers", e OSTP, 1987. “A Report to the Office of Science and Technology Policy on Computer Networks to Support Research In the United States”.
[4] Em 24/06/1986: S. 2594, Supercomputer Network Study Act of 1986. Em 18/10/1988: S. 2918, National High-Performance Computer Technology Act. E, em 18/05/1989: S. 1067, High-Performance Computing Act.
É impressionante sempre observar a qualidade técnica dos textos de João. É uma perfeita execução, e deve ser uma análise bastante profunda do assunto em questão.
ResponderExcluirOu porque me viciei em Superinteressantes pela vida afora, ou porque me falta mesmo umas 500g de neurônios funcionando a mais no cérebro, não consigo entender basicamente nada do assunto que ele resolve explorar.
Mas que tá bonito tá.
Mal posso esperar pra ver a versão ilustrada.
O pior é que ele vai achar que eu tô de sacanagem, mas é que eu sou burrinho mesmo.
hehe.