João Martins Ladeira
Foi Strindberg quem, certa vez, disse sobre uma de suas peças: “Fiz uma tentativa! Se for um fracasso? Bem, há muito tempo para tentar novamente!”. De fato, os riscos para o artista são sempre imensos: falhar recorrentemente surge como o pior de todos. Tropa de Elite I foi um destes casos. Seu objetivo residia em retratar as muitas contradições do Bope. Soldados desumanizados, treinados no uso da violência e não na execução da lei, envolvidos numa guerra não declarada com imensas baixas de ambos os lados, num confronto marcado pelo sistemático ataque a inocentes: complexidades intensas demais para tratar através da dinâmica típica ao filme policial convencional.
Frente à impossibilidade de através de tal formato abordar este tema áspero, a película foi amplamente criticada e elogiada. Para alguns, “fascista” seria a denominação preferida [
1]. Para outros, numa posição mais difícil de rotular, Tropa de Elite sepultaria alguma ideologia irresponsável que esconderia uma atitude hedonista de indivíduos incapazes de se identificar como os financiadores de uma indústria militarizada. O segundo filme tem sido elogiado por assimilar maior “profundidade” ao projeto, mas talvez esta seja apenas parte da questão. Sua especificidade localiza-se não em sua suposta “complexidade”, mas em um uso mais hábil de outras fórmulas típicas à narrativa cinematográfica.
A diferença entre ambos está no modo pelo qual se trata, em 2010, aquilo que foi levianamente abordado em 2007. Se Tropa de Elite II parece menos controverso, talvez seja por recorrer a um formato capaz de melhor explorar as desconfianças do público sobre nossas próprias instituições. Aqui, utilizou-se o filme político, não o cinema policial. Através deste formato, algumas fórmulas parecem melhor se ajustar à descrença com a qual encaramos nossa sociedade. Assim, a segunda tentativa pôde passar mais comodamente ao largo do consenso indispensável à aceitação sem atritos do simples filme de polícia e bandido. Vejamos.
I
Em 2007, diz-se que Tropa de Elite teria sepultado uma imagem “condescendente” em relação ao crime. O cinema brasileiro o teria idealizado. No afã de denunciar formas de exploração, mostrava-o como a opção de homens comuns frente à pobreza, conseqüência da miséria de uma sociedade injusta, que o artista deveria denunciar no interesse de criar solidariedade e revolta. Por sua vez, as instituições legais surgiriam como intrinsecamente sádicas. Sempre prontas a praticar um regime de apartheid extraoficial, seriam como o Detetive Washington, do conto A Coleira do Cão: máquinas de corrupção reproduzindo a si mesmas.
Tal ciclo poderia ser destruído eliminando as condições de opressão física e econômica, numa solução que seria tanto melhor quanto mais deixasse de lado tal contexto viciado. A defesa do direito à vida torna-se uma opção, sendo, porém, apenas um meio para um fim maior: alertar para a necessidade de substituir um sistema social injusto que condena à miséria etc. De todas as opções disponíveis para sepultar tal realidade, a revolucionária seria obviamente a melhor. Porém, frente à impossibilidade óbvia disto ocorrer, ficava-se sem resposta. Como proceder em relação a tal grave problema?
De outro ponto de vista, estaríamos em guerra. Nela, pode-se claramente distinguir os lados em combate – policiais e traficantes – sem meio-termo. As razões que conduziram ao embate têm pouca relevância: o crime não se justifica. Tais aventuras interpretativas seriam exercícios escolásticos capazes de torcer o que quer que seja, invertendo absolutamente todos os princípios institucionais da sociedade. Se há uma doença, existe uma cura.
Se o remédio for doloroso, deve-se ter paciência: frente à rudeza das circunstâncias, a guerra torna necessários meios de difícil aceitação em condições normais. O inimigo precisa ser derrotado e, embora métodos como a tortura sejam em si deploráveis, quando utilizados apenas demonstrariam a situação psicológica precária a qual “nossos homens” foram expostos, e nunca um desvio intrínseco a sua lógica de operação. Mortes são registradas, mas, caso se restrinjam apenas ao inimigo, pouco importa.
II
A resposta de Tropa de Elite I ficava no meio deste imbróglio. Em parte, apresentava-se como uma terceira opção, capaz de ir além desta dicotomia simplista. Desdobramento de esforços anteriores de experts no espinhoso tema da segurança pública, o filme, afinal, adaptava reflexões de “uma das maiores autoridades do Brasil em segurança (...) e dois policiais” [
2]: uma pequena novela e 22 contos, mas vá lá, ainda assim um relato tarimbado. Porém, era um filme policial, e, neste gênero, depende-se de convenções em série, a principal delas um consenso muito claro sobre o papel do xerife e do bandido na história que se vai assistir.
A solução funciona em alguns contextos sociais. O cinema policial surgiu como parte das aventuras contadas pela indústria de entretenimento norte-americana. Seria interessante pensar como o próprio gênero policial guarda em si uma contradição típica à modernidade. A necessidade de instituições capazes de exercer a violência centralizada e o temor da força escapar ao controle consiste exatamente no conteúdo inconsciente expresso nos infinitos crimes, investigações, perseguições e prisões. A solução que o cinema dos EUA propôs reflete a forma como uma sociedade confiante em suas instituições se tranqüiliza em relação a um pavor razoável.
Todavia, a percepção brasileira sobre nossas instituições é bem díspar. Antes de tudo, são incapazes: para a “esquerda”, corruptas e desumanas, por exterminar inocentes e ignorar direitos fundamentais; para a “direita”, ineficientes, pela incapacidade de executar seja a justiça oficial, nos tribunais, ou extra-oficial, nas ruas. Abordar tal impasse sem recorrer a nenhuma das duas ideologias havia sido a opção do primeiro filme. Ali, tentava-se descartar tanto a primeira quanto a segunda ideologia. Em 2007, a película não queria ser nem defesa de marginal ou publicidade de tira. Opção corajosa, pois deixava Tropa de Elite I sem muito terreno em que se assentar.
Porém, a tentativa foi empreendida recorrendo a termos, em nosso país, difíceis de aceitar. A dicotomia simplista da narrativa policial, criada num ambiente no qual se encaixa perfeitamente, no nosso caso parece fora do lugar. O cinema norte-americano pressupõe papéis e funções para cada uma das partes, num entendimento solidificado. Aqui, este consenso encontra-se ausente. Para nós, ao invés de simplesmente partir de alguns pressupostos bem delineados, soa impossível tratar do tema sem antes atravessar toda uma discussão sobre a posição ideológica de ambas as partes envolvidas em relação aos termos rudemente resumidos na seção anterior.
Tentativa fracassada, então. Como contraponto ao imenso sucesso comercial do primeiro filme, deparava-se com sua visível incapacidade em alcançar os objetivos expostos mais claramente não na película, mas no livro “Elite da Tropa”. Sua meta deveria ser “enriquecer [a] reflexão [sobre] os policiais (...)[, sem] depreci[á-los] (...), mas valoriz[ando-os]. Se desejamos construir uma sociedade justa (...), não podemos deix[á-los] à margem” [
3]. Ora, se em Tropa de Elite I o Bope havia sido valorizado, era não por sua eficiência policial, mas pela sua perícia como justiceiros. A ampla aceitação do filme punha aquela proposta em situação contraditória; a ampla rejeição decorria do mesmo princípio. Num balanço final, a obra ficava num beco sem saída.
Não que Tropa de Elite I fosse um filme ruim: trata-se de um bom filme, sendo, todavia, apenas um filme policial. Certamente, a obra continha diversas lacunas, já amplamente identificadas em discussões pregressas. A ausência de um contraponto ao Capitão Nascimento era a principal delas: tudo que não fosse conduzido pelos seus punhos parecia estúpido, inútil ou equivocado. A isso se soma o curioso fato de, no filme, não se utilizar nenhuma das muitas passagens de “Elite da Tropa” que relatam erros policiais cujo resultado fora a morte de inocentes. Nada sobre os autos de resistência. Nada como o conto “Tarja preta e fitinha azul”, que merece a leitura.
Por melhor que seja, o filme policial não contém espaço para o tipo de problema que Tropa de Elite I esperava apresentar. Seu compromisso é com a ação, com a trama capaz de conter reviravoltas surpreendentes, atores cativantes etc. Todo o resto, o processo de desumanização pelo treinamento ou pela barbárie cotidiana, ou seja, o tema do poder em si, desaparece frente à excitação com a aventura. Certo: algumas películas policiais caminham no fio da navalha em relação a esta complexidade, mas nem todos os tiras conseguem ser Jimmy Doyle, de Operação França, quintessência das contradições.
III
Porém, o recurso ao cinema político, opção de Tropa de Elite II, permite uma centena de vieses, que o filme policial trilha com dificuldade. Desconfiar do poder sem necessariamente ter de atribuir seu ônus a nada além que à natureza interna de sua lógica se torna muito mais simples aqui que num formato no qual é preciso identificar os oponentes do duelo ao cair do dia. Na verdade, o poder é o principal personagem do segundo filme. Poder invisível, que não consegue ser capturado na figura de um único homem, seja a do Major Rocha ou do Coronel Barbosa.
Logo, a encenação de um “sistema” inexpugnável, como Nascimento diversas vezes repete, se encaixa mais adequadamente à desconfiança sobre as instituições que nos rodeiam. O risco criado para o individuo pela máquina invisível de poder político ou econômico sempre foi o tema predileto deste gênero. Também o cinema político é uma criação – relativa – da indústria norte-americana. Lá, este formato tende a se identificar com os atos de um homem solitário, contrapondo-se a todo aquele outro “sistema”. Basta lembrar “Todos os Homens do Presidente”, “Os Três Dias do Condor” ou, para ser irônico, “O Ovo da Serpente” e vê-se este principal eixo [
4].
Nosso “sistema”, porém, difere pela impossibilidade de supor que possa ser retomado por um indivíduo: em nosso imaginário, ele é intrinsecamente duvidoso, corrupto, ineficiente. Lutar contra ele é enfrentar um muro: a própria condição que se tentava ilustrar no primeiro filme, sem solução. Todavia, Tropa de Elite II não quer nos dizer o quanto nossa situação parece “cronicamente inviável”. Exatamente o oposto. Sua tentativa de dar outro enfoque àqueles temas que tanta controvérsia despertaram indica, agora com sucesso, a direção de outra via ideológica a qual seguir. Isso adiciona uma última questão a um debate sem fim.
IV
Se as duas perspectivas anteriormente descritas foram deixadas de lado, afinal a qual visão de mundo a franquia adere? Se nem o argumento da miséria que conduz à barbárie serve de explicação fácil, nem a lógica do “prende e arrebenta” funciona como justificativa covarde, não seria Tropa de Elite um apelo à tentativa de construir algum outro tipo de legitimidade? Por um lado, a sociedade afluente que o Brasil contemporâneo deseja produzir carece de justificativas normativas em diversos planos. A “terceira interpretação” oferecida por filme e livro parece outra tentativa strindbergiana, mas de natureza distinta: contribuir de forma bem modesta para suprir tal lacuna.
Estabelecer o elo perdido entre policial e sociedade havia sido o objetivo declarado, decididamente não alcançado em 2007. A segunda tentativa pendia para uma exposição didática sobre os motivos que tornam tal empreendimento algo extremamente complexo: as instituições se encontram decididamente comprometidas por uma espoliação generalizada do Estado; a lógica de funcionamento da política, com exceção de homens como Diogo Fraga, parece intrinsecamente comprometida; não soa viável nem ao menos se esconder por trás dos “homens de preto”, pois até Nascimento compreende que “talvez fosse melhor a polícia acabar”.
Porém, se “o inimigo agora é outro”, quem exatamente ele é? Que visão de mundo, da qual ambos os filmes são apenas indícios, pretende tomar o lugar daquelas duas opções que nos permitiam enquadrar estes problemas da sociedade brasileira? Corrigir as instituições, quando elas sempre foram encaradas como incorrigíveis? Garantir legitimidade aos instrumentos de monopólio da violência, quando, de fato, por centenas de vezes eles agiram fora da legalidade? Este talvez seja o debate que a película de maior bilheteria na história do cinema brasileiro permitiu iniciar. Discussão, porém, sem qualquer sinal de solução no horizonte.
Notas
[1] Foram críticas curiosas. Entre dezenas de outras características, o fascismo havia sido marcado pela tentativa de controlar diversas instâncias da sociedade através de um Estado forte. Tropa de Elite I refletia uma experiência diversa: tratava da incapacidade do Estado em controlar suas próprias forças militares, deixando-as agir a esmo, seguindo regras próprias de extermínio. O filme estava muito mais próximo de outro tipo de cinema recente, empenhado em abordar um mundo no qual a força parece progressivamente fora do controle deste mesmo Estado (a série A Identidade Bourne, A Supremacia..., O Ultimato... surge como um excelente exemplo, a despeito das infinitas diferenças entre ambos).
[2] Ver a contracapa de “Elite da Tropa”, de Luiz Eduardo Soares, André Batista e Rodrigo Pimentel. Editora Objetiva.
[3] p. 10-1
[4] De fato, alguns filmes são mais complexos, como os roteiros de Franco Solinas e as películas de Costa-Gavras ou Gillo Pontecorvo. Todavia, trata-se da exceção que confirma a regra. Tropa de Elite II tenta alcançar tal complexidade e, em certa medida, consegue. A discussão sobre este ponto renderia outro texto. Apenas um exemplo: a citação de Padilha a Hanna K é mais que uma alusão à dubiedade de Rosane, mas remete ao tipo de cinema que o diretor buscou fazer. O filme de Costa-Gavras abordava a profunda injustiça de uma estrutura de poder montada com a finalidade de privilegiar alguns personagens em detrimento de outros. Hanna K ilustra uma engenharia complexa, através da qual determinados recursos se transformam em instrumentos de segregação. Tropa de Elite II narra em detalhes um processo semelhante ao caso contado pelo diretor grego: a criação de uma rede complexa de poder ilegítimo, num difícil emaranhado de interesses subterrâneos, esforço interpretativo que, enfim, espelha o melhor traço do cinema político.